Inteligência Eleitoral / Relatório especial · 2ª versão / 11 de outubro de 2026
Quem vencer herda a mesma conta
Os planos de Flávio Bolsonaro (PL) e de Lula (PT) divergem no caminho, não na aritmética. Nos cenários que testamos, a dívida bruta sobe até 2030 e termina entre 91% e 103% do PIB, conforme os juros. Nenhum dos dois planos quantifica o ajuste, e as entregas que prometem dependem do Congresso, de estados e municípios e da reação de famílias e empresas.
Nesta página estão a abertura, os gráficos e as notas de método de cada capítulo do relatório. O texto integral, com todas as tabelas, os quadros Lente e as referências, está no PDF. A conta dos cenários de dívida está detalhada na nota técnica de 16 de outubro.
Método · Como ler este relatório
Três perguntas, três réguas
Esta versão separa o que os dados mostram, o que se pode atribuir a um governo e o que cada plano consegue entregar. Cada afirmação central recebe o selo da evidência que a sustenta.
O que os dados mostram. Séries oficiais (Banco Central, IBGE, Tesouro, INEP, FBSP) e identidades contábeis. É o terreno mais firme: que a dívida subiu 11,2 pontos do PIB desde 2022 não depende de interpretação.
O que se pode atribuir. Dizer que um governo causou uma mudança exige um contrafactual: o que teria acontecido sem ele. Comparar antes e depois, ou quem participa com quem não participa, são as duas estimativas que Gertler e coautores chamam de contrafactuais falsos (p. 59), porque misturam o efeito da política com tudo o que mudou ao mesmo tempo. Quando o dado só permite associação, o texto diz associação.
O que os planos conseguem entregar. Plano de governo pede avaliação antes da execução: não há resultado a medir, só a lógica que liga recursos a efeitos. Usamos a teoria da mudança (insumos, atividades, produtos, resultados e impacto) e perguntamos, em cada elo, quem decide, quem executa e como o público reage.
A mesma régua para os dois. Apartidário não é dividir as críticas ao meio: é aplicar o mesmo teste a cada proposta e publicar o resultado, mesmo quando ele pesa mais para um lado. Onde a evidência é assimétrica, o texto mostra a assimetria.
| Selo | Quando usamos | Exemplo neste relatório |
|---|---|---|
| Sustenta | A série oficial ou a identidade contábil confere | Juros de 8,86% do PIB em 12 meses; comprometimento de renda de 28,7% |
| Com ressalva | O número confere, mas depende da base de comparação, da medição ou do recorte | Renda 17% acima de 2022, ou 12,9% acima de 2014; violência no menor nível da série, com homicídios ocultos em alta |
| Associação | Os dados andam juntos, mas a causa não é identificável com o desenho disponível | Gasto por aluno e IDEB; inflação de alimentos comparada entre governos |
| Não sustenta | O dado contradiz a afirmação | Leitura de que a queda ou a alta da dívida se deve só ao primário de cada governo |
Contexto · Congresso
Sem o centro, nenhuma PEC passa
Flávio e Lula chegam ao 2º turno separados por 1,9 ponto dos votos válidos. O PL terá a maior bancada da Câmara e do Senado, mas PL e coligação de Lula somam 245 dos 513 deputados: as mudanças constitucionais que os dois planos exigem dependem dos partidos de centro e centro-direita.

A régua é alta. Uma emenda constitucional exige 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos; uma lei complementar, 257 e 41. O eleito toma posse em 5 de janeiro de 2027, e o Congresso eleito, em 1º de fevereiro: uma PEC votada antes disso é decidida pela legislatura atual, caminho usado na transição de 2022.
O gargalo do centro depende do tema. O fim da escala 6x1 passou na Câmara por 472 a 22, e a PEC da Segurança Pública, por 487 a 15; as duas esperam o plenário do Senado. Pautas de benefício amplo passam com folga; as de perda concentrada, como a desindexação de benefícios, não constam de nenhum dos dois planos (p. 7).
Contas públicas · Dívida
A dívida voltou a subir, e quase todo o déficit é juro
A dívida bruta passou de 71,7% do PIB em 2022 para 82,9% em agosto de 2026. O déficit primário do setor público é de 0,6% do PIB, mas os juros somam 8,9%. Decomposta, a variação mostra que juros e inflação explicam mais que o primário, no atual governo e no anterior.

Para a dívida parar de crescer, a IFI estima ser preciso superávit de 2,1% do PIB por ano, cerca de R$ 395 bilhões a preços de 2027. A meta de 2027 é de 0,5% do PIB, e as despesas obrigatórias ocupam 89,4% do limite de gasto.
Os planos · Lado a lado
Um plano corta, o outro arrecada; nenhum põe número no ajuste
O plano do PL anuncia um ajuste de gastos, o "Tesouraço", e cortes de impostos; o do PT mantém o arcabouço fiscal e aposta em receita e crescimento. Os dois trazem metas com número em outras áreas, mas nenhum quantifica o ajuste fiscal.
| Dimensão | Flávio Bolsonaro (PL) | Lula (PT) |
|---|---|---|
| Papel do Estado | Regulador; desestatização "caso a caso" (p. 70); Petrobras, BB e Caixa fora, segundo o coordenador econômico | Indutor: Nova Indústria Brasil, conteúdo local, compras públicas e Petrobras de volta à distribuição |
| Regra fiscal | Nova regra ligada à dívida, com gasto de crescimento real zero acima de 80% do PIB (Reuters) | Manter o arcabouço; aperto do teto real de 2,5% para cerca de 1,5% relatado por um veículo |
| Ajuste declarado | 1,5% do PIB em 18 meses (coordenadora do programa), sem detalhe no plano | Nenhum no plano; ajustes pós-eleição relatados pelo Broadcast |
| Impostos | Revogar aumentos de 2023–2026, IOF ao nível de 2022, fim do imposto de exportação de petróleo, IVA menor | Imposto Seletivo; manter a reforma do IR; nenhuma alíquota nova no texto |
| Benefícios e mínimo | "Aposentado, fique tranquilo" (candidato); estudo noticiado de corrigir INSS e BPC só pela inflação, negado | Continuidade da valorização do mínimo (p. 74); estudo noticiado de reajuste menor para benefícios, negado |
| Trabalho | Negociado sobre o legislado; contratos com menor custo para jovens e para pessoas com 50 anos ou mais (pp. 43–44) | Fim da escala 6x1 e 40 horas sem redução salarial (p. 75) |
| Segurança | Dobrar o investimento federal (p. 15), meio milhão de vagas prisionais, fim da progressão para crimes hediondos, Forças Armadas em portos | PEC da Segurança e Sistema Único de Segurança Pública; asfixia financeira do crime; controle de armas |
| Instituições | Limitar decisões monocráticas do STF, fim do foro no STF e da reeleição (pp. 65–66); rastrear emendas (p. 69); extinguir estruturas que rotulem desinformação (p. 66) | Regulação democrática das redes (p. 16); rever o sistema de emendas, de R$ 50 bilhões em 2026 (p. 15); diálogo com o Judiciário |
| Metas com número | Crescer 4% ao ano por uma década (p. 49); meio milhão de vagas em 4 anos (p. 14); 100% dos serviços federais digitais (p. 25). Nenhuma meta fiscal para 2027–2030 | 80% das crianças alfabetizadas na idade certa (p. 31); emissões 59% a 67% menores até 2035 (p. 69); desmatamento líquido zero até 2030 (p. 70). Nenhuma meta fiscal para 2027–2030 |
| Política externa | Adesão à OCDE; aproximação com EUA, Israel e Argentina | BRICS, Sul Global, Mercosul e reforma da ONU |
Os planos coincidem mais do que a campanha sugere: prontuário eletrônico único e telessaúde, compra de serviços da rede privada para o SUS, fundo com imóveis da União, asfixia financeira de facções, transparência das emendas e minerais críticos. Os dois lados também estudaram, segundo a imprensa, reduzir o ganho real dos benefícios atrelados ao salário mínimo (a Folha sobre o PL, o Valor sobre o PT); as duas equipes negam, e a medida exige PEC nos dois casos.
O que separa os planos é o instrumento. As medidas do PL de maior efeito fiscal, como pisos de saúde e educação corrigidos só pela inflação, dependem de uma "Super PEC" que, segundo reportagens, seria votada pelo Congresso atual antes da posse. As do PT dependem de receita: o Congresso derrubou o aumento do IOF em 2025, e o STF restabeleceu a maior parte dele; R$ 42 bilhões do Imposto Seletivo previstos para 2027 dependem de lei ainda não enviada.
Análise · Teoria da mudança
A cadeia trava antes do resultado: no Congresso, nos estados e na reação do público
Reorganizamos as conclusões na cadeia que liga recursos a efeitos. Os dois planos descrevem bem os insumos e as atividades; os gargalos que o relatório encontrou estão nos elos seguintes, onde a decisão passa a terceiros.

Gargalo político, nas atividades. Nenhum dos lados chega sozinho a 308 e 49 votos. O PL depende de PEC para cortar gasto; o PT, de lei para criar receita. Nos dois casos, a primeira etapa já depende de terceiros, e o gargalo muda conforme o tema (p. 3).
Gargalo federativo, nos produtos. Policiamento, perícia e presídios são estaduais: os estados pagam 80,5% do gasto em segurança. Aula e atendimento são municipais: os municípios aplicam 21,6% da receita em saúde. O governo federal financia e regula, mas não entrega (p. 8).
Gargalo comportamental, nos resultados. Bloquear apostas, baratear contratações ou reduzir a jornada só produz o resultado esperado se famílias e empresas reagirem como o plano supõe. A evidência brasileira sobre medidas parecidas é mista (p. 9).
Gargalo de medição, no impacto. IDEB, mortes violentas e dívida são resultados finais, influenciados por muitos fatores. Atribuí-los a um governo exige grupo de comparação, que os dados disponíveis raramente oferecem (pp. 13 e 16).
Desenho das propostas · Fiscal
O histórico das metas fiscais é o teste mais duro para os dois planos
Comparadas com o que o país entregou antes, as promessas dos dois lados pedem desempenho acima da média histórica: crescimento que só uma janela de dez anos alcançou, receitas que já frustraram e regras fiscais alteradas nos dois últimos mandatos.

Coerência interna. No PL, os cortes de impostos saem por lei e os de gasto, por PEC: se só a primeira parte passar, o déficit aumenta (p. 11). No PT, o limite de gasto cresce até 2,5% acima da inflação, mas benefícios atrelados ao mínimo e pisos atrelados à receita crescem mais rápido, e a IFI projeta que, a partir de 2028, o limite não comporta o funcionamento mínimo da máquina.
O item que falta nos dois. Corrigir INSS e BPC só pela inflação pouparia R$ 55–70 bilhões no 4º ano, e as duas campanhas negam ter estudado a medida. A aversão à perda ajuda a explicar: perdas pesam mais que ganhos equivalentes (Kahneman, pp. 417–418), e a desindexação concentra a perda em um grupo identificável enquanto espalha o ganho, juros menores, por todos.
Desenho das propostas · Implementação
Quem executa a promessa não é quem a faz
Segurança, saúde e educação são entregues por estados e municípios, por profissionais que decidem na ponta. Os dois planos têm instrumentos para isso, como repasses com metas e coordenação constitucional, mas nenhum diz quanto da entrega depende de cada ente.

Quem entrega a segurança. O plano do PL promete dobrar o investimento federal em segurança (p. 15) e criar meio milhão de vagas prisionais "em parceria com os governos estaduais" (p. 14); o do PT aposta na PEC da Segurança e no Sistema Único de Segurança Pública. Nos dois casos, policiamento, investigação e presídios seguem estaduais. A União gastou R$ 18,1 bilhões em 2025, 11% do total, e a segurança nunca passou de 0,4% da despesa federal entre 2021 e 2025.
Desenho das propostas · Incentivos
Os incentivos funcionam se o público reagir como o plano supõe
Toda proposta aposta em uma reação: empresas que contratam, famílias que deixam de apostar, alunos que permanecem na escola. A evidência sobre medidas parecidas ajuda a calibrar essa aposta, a favor ou contra cada plano.
Onde a evidência ajuda cada lado. A experiência de 1988 reduz o risco atribuído à jornada de 40 horas; a desoneração de 2012 aumenta o risco atribuído aos contratos baratos. Vouchers e transferências condicionadas têm avaliações por sorteio favoráveis em outros países, e o efeito no Brasil depende de oferta de vagas e de desenho.
O limite comum. Em crédito, Thaler e Sunstein associam a crise financeira a três traços humanos: racionalidade limitada, falta de autocontrole e influências sociais (pp. 400–401). Com juros de 61,7% ao ano, nenhum dos dois planos estima quanto suas medidas reduziriam os 28,7% da renda presos em parcelas.
Desenho das propostas · Instituições
Os dois planos mexem nas regras do jogo; o desenho decide o efeito
Levitsky e Ziblatt propõem quatro sinais de alerta sobre a relação de candidatos com as regras democráticas. Aplicados às propostas dos dois lados, eles não dão veredito pronto: mostram o que é preciso saber de cada medida antes de julgá-la.
Integridade do orçamento. Os dois governos recentes usaram despesa fora do caminho normal do orçamento. Com as emendas de relator (RP9), a média anual das emendas saltou de R$ 12 bilhões (2014–2019) para R$ 35,5 bilhões (2020–2023), segundo o TCU; o STF declarou a RP9 inconstitucional em dezembro de 2022. Em janeiro de 2025, o TCU bloqueou R$ 6 bilhões do Pé-de-Meia, pago por um fundo fora da lei orçamentária, e exigiu sua inclusão no orçamento.
Análise fiscal · Cenários 2027–2030
Com juros perto do Focus, a dívida termina 2030 entre 97% e 103% do PIB
Testamos cada plano em duas versões, com e sem a aprovação no Congresso das medidas de que ele depende. Com juros perto das expectativas de mercado, a dívida vai a 97%–103% do PIB em 2030; com os juros e o crescimento da IFI, a 91%–98%.

Flávio, PEC aprovada: "Super PEC" aprovada, ajuste de 1,5% do PIB em 18 meses e venda de ativos de 0,25 ponto do PIB por ano; primário de +0,1% a +1,2% do PIB. PEC barrada: só cortes administrativos e combate a fraudes, com os cortes de impostos aprovados por lei; de −0,5% a −0,1%.
Lula, receitas aprovadas: limite de gasto apertado, Imposto Seletivo e revisão de gastos tributários aprovados; de −0,3% a +0,5%. Receitas barradas: regra atual, sem as receitas novas e com as despesas contínuas já contratadas; de −0,6% a −0,8%.
O mesmo eixo para os dois. Na 1ª versão, os cenários do PL variavam com o Congresso e os do PT com a disposição do governo. Agora os dois variam com o que depende de terceiros: a PEC dos cortes, para um; as leis de receita, para o outro.
Análise fiscal · Validação dos cenários
A incerteza dos juros é maior que a distância entre os planos
Um ponto de juro move a dívida de 2030 em cerca de 4 pontos do PIB, e as projeções da IFI para 2030 variaram 9,6 pontos em dois anos. A diferença entre os planos, de até 6,3 pontos, cabe dentro dessa faixa.

Por isso, a faixa. Com os juros e o crescimento da IFI, os quatro cenários terminam 2030 entre 91% e 98% do PIB; com juros perto do Focus, entre 97% e 103%. O histórico não permite escolher um dos dois caminhos com segurança, e a conclusão vale para ambos: a dívida sobe em todos os cenários.
A incerteza é maior que a diferença. A projeção da própria IFI para 2030 variou 9,6 pontos em dois anos. A distância entre o melhor e o pior cenário dos planos é de 6,3 pontos, e o melhor cenário do PL com juro 1 ponto acima (100,6%) fica acima do cenário central do PT com receitas aprovadas (100,0%).
O que o modelo não mede. O juro quase não reage ao ajuste no modelo, mas um ajuste crível pode baixá-lo e um ajuste revertido, elevá-lo: 1 ponto vale cerca de 4 pontos de dívida em 2030. É provavelmente o canal mais importante entre a eleição e a dívida, e nenhum dos planos consegue prometê-lo por escrito.
Entrega · Eficiência do gasto
Gasto e IDEB andam juntos até R$ 16 mil por aluno; descontada a renda, a relação quase some
O IDEB de 2025 foi o maior da série, e a taxa de mortes violentas registradas chegou ao menor nível desde 2012. Os dados mostram associação entre gasto e resultado, não causa, e a queda da violência tem uma ressalva de medição.

O investimento municipal por aluno subiu 49,8% em termos reais entre 2013 e 2023. Cada R$ 1 mil a mais por aluno se associava a 0,16 ponto de IDEB em 2017 e a 0,06 em 2023; descontado o nível socioeconômico, a associação cai a 0,02 nos anos iniciais e some nos finais. A queda com o controle indica que boa parte da relação vinha das diferenças entre os municípios, não do gasto: é o viés de seleção (Gertler et al., p. 64). A 1ª versão atribuía o restante à gestão; gestão é hipótese plausível, mas não foi medida.
Bolso das famílias · Renda e dívidas
A renda bate recorde, e a parcela das dívidas também
A renda média real do trabalho chegou a R$ 3.777 no trimestre até agosto, e o desemprego está em 5,3%. Ao mesmo tempo, as parcelas das dívidas tomam 28,7% da renda das famílias, o maior valor desde 2005, com juros de 61,7% ao ano no crédito pessoal.

Renda. A renda média real do trabalho foi de R$ 3.777 no trimestre até agosto, a maior para o período da série; o recorde absoluto, R$ 3.804, foi no 1º trimestre de 2026. A base importa: a alta é de 17,4% sobre 2022, segundo nível mais baixo da série iniciada em 2012, de 12,9% sobre 2014 e de 13,3% sobre 2019. São 103,5 milhões de ocupados, com desemprego de 5,3% e informalidade de 37,5%.
Informação · Campanha
Os dois lados erram números, e os dois são alvo de boatos
As agências de checagem classificaram como falsas afirmações dos dois candidatos e derrubaram boatos contra os dois. Quase tudo o que circula parte de um fato real e chega a uma conclusão que os dados não sustentam.
| Afirmação | Origem | Veredito · Fonte |
|---|---|---|
| Flávio vai acabar com o 13º e o BPC e elevar a aposentadoria a 75 anos | Boato contra Flávio | Falso (TMC Prova) |
| Vídeo de Flávio anunciando o fim do Bolsa Família, do BPC e do Pé-de-Meia | Boato contra Flávio | Falso: deepfake sobre discurso de 4/10 (Boatos.org) |
| "O Pix foi criado no governo Bolsonaro" (também no plano, pp. 23 e 29) | Flávio e plano do PL | Falso: o BC começou o projeto em 2018 (Lupa) |
| "Dívida subiu 13 pontos do PIB em quatro anos" | Plano do PL | BC: +11,2 pontos, de dez/2022 a ago/2026 |
| Imposto de 27,5% sobre Pix acima de R$ 5 mil | Boato contra Lula | Falso, boato recorrente (Boatos.org) |
| Vídeo de deputado dizendo que Lula está inelegível | Boato contra Lula | Falso: deepfake (Lupa) |
| "O Brasil só cresceu acima de 3% quando eu voltei" | Lula | Falso: 3,9% em 2011, 4,8% em 2021 e 3,0% em 2013 e 2022 (Lupa) |
| "Acabei com a fome duas vezes" | Lula | Exagerado para Lupa e Aos Fatos; verdadeiro para o Estadão Verifica, que considerou as saídas do Mapa da Fome em 2014 e 2025 |
| "Menor taxa de desmatamento da história da Amazônia" | Plano do PT, p. 13 | Não confere: 5.796 km² em 2025; o mínimo foi 4.571 km², em 2012 (INPE) |
Por que o boato pega. Cialdini descreve dois atalhos que ajudam a explicar a defesa de um lado sem exame do plano: compromisso e coerência, a pressão para agir de acordo com uma posição já assumida (cap. 3), e aprovação social, a tendência a tomar como correto o que o próprio grupo faz (cap. 4). Kahneman chama de cascata de disponibilidade o ciclo em que uma história repetida ganha peso político por estar na cabeça de todos (pp. 233–234). Os três mecanismos operam do mesmo modo nos dois campos.
Validação · O que os dados sustentam
O diagnóstico se sustenta; a atribuição, raramente
Cruzamos as afirmações centrais do relatório, e algumas leituras de campanha, com os dados públicos e com a régua da p. 2. As séries confirmam o diagnóstico; o que não se sustenta são as leituras que atribuem resultados a governos sem grupo de comparação.
O padrão. O que é contagem ou identidade contábil confere. O que perde força é a passagem do número para a explicação: dizer por que a dívida caiu, por que o IDEB subiu ou por que a violência diminuiu exige um grupo de comparação que a série nacional não tem. Nesses casos, a régua troca a palavra "causou" por "andou junto".
A leitura do MF Advisor
A eleição escolhe o caminho; a conta e os executores são os mesmos
Quem vencer assume em 5 de janeiro com dívida perto de 83% do PIB, Selic esperada de 13,5% no fim do ano e despesas obrigatórias ocupando quase 90% do limite de gasto. Os planos diferem no caminho, e nenhum mostra que ele basta.
O que os planos não dizem. Nenhum dos dois põe preço nas promessas nem diz de onde vem o dinheiro. O PL concentra o ajuste em uma PEC que a campanha não detalha e corta impostos por lei: seu risco é de execução, e o histórico de regras fiscais alteradas por emenda pesa contra a meta. O PT mantém uma regra que, segundo a IFI, não estabiliza a dívida e conta com receitas ainda não aprovadas: seu risco é de suficiência, e a frustração do CARF em 2024 pesa contra a estimativa.
Onde a cadeia trava. O primeiro gargalo é político: sem o centro, nenhuma das duas agendas constitucionais passa. O segundo é federativo: segurança, saúde e educação são entregues por estados e municípios. O terceiro é de comportamento: os incentivos funcionam se famílias e empresas reagirem como os planos supõem, e a evidência sobre medidas parecidas pesa ora a favor, ora contra cada lado.
Os juros ligam tudo. Com 46,4% da dívida federal na Selic, 1 ponto de juro vale cerca de 4 pontos de dívida em 2030, e a incerteza sobre os juros é maior que a distância entre os planos. A credibilidade do vencedor pode pesar mais que a aritmética do plano. Fora das contas, IDEB e renda estão em recorde e as mortes violentas registradas no menor nível da série; famílias com 28,7% da renda presa em parcelas, a 61,7% ao ano, é o ponto que nenhum plano enfrenta com número.
O placar, por elo da cadeia
| Elo | Indicador | Valor | Variação | Recorte · Fonte |
|---|---|---|---|---|
| Insumo | Juros nominais, setor público | 8,86% do PIB | 93% do déficit nominal | 12m até ago/26 · SGS 5727−5793 |
| Insumo | Selic | 13,75% | Focus: 12% no fim de 2027 | desde 16/9/26 · Copom; Focus 2/10 |
| Insumo | Despesas obrigatórias no limite de gasto | 89,4% | limite não comporta a máquina em 2028 | 2027 · IFI |
| Atividade | Deputados de PL e coligação de Lula | 245 de 513 | PEC exige 308 | 2027–2031 · TSE |
| Produto | Déficit de vagas prisionais | 281.213 | +18,3% sobre 2024 | 2025 · FBSP, Sisdepen |
| Produto | Gasto com segurança pago pelos estados | 80,5% | União: 11,1% | 2025 · FBSP |
| Resultado | Comprometimento de renda das famílias | 28,7% | maior da série | jul/26 · SGS 29034 |
| Resultado | Renda média real do trabalho | R$ 3.777 | +12,9% sobre 2014 | jun–ago/26 · SIDRA 6390 |
| Resultado | IDEB, anos iniciais | 6,3 | +0,3 sobre 2023 | 2025 · INEP |
| Resultado | Taxa de mortes violentas | 19,1 por 100 mil | −8,2% sobre 2024 | 2025 · FBSP (ressalva na p. 13) |
| Impacto | Dívida bruta do governo geral | 82,9% do PIB | +11,2 p.p. sobre dez/22 | ago/26 · SGS 13762 |
| Impacto | Dívida em 2030, cenários | 91% a 103% | IFI: 95,7% | MF Advisor · IFI, RAF 113 |